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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Anarquismo Cristão?

Texto principal da versão impressa da segunda edição do Peplo:
Geralmente, a imagem do anarquismo é diretamente ligada ao ateísmo, à negação total e completa de um “ser”, ou um “ente” que seja de alguma forma superior a nós, e que controla as ações e mentes humanas. Obviamente, o cristianismo corrente que se encontra por aí, não ajuda muito em desmistificar essa idéia. Porém, ao se estudar a Bíblia de uma maneira mais detalhada e contundente, buscando despir-se de preconceitos e idéias pré ordenadas, a coisa começa a mudar de figura.

Um exemplo disso, é no livro de 1Samuel 8:11-18, quando o povo hebreu pede a Deus que lhes conceda um rei, no que Deus avisa (através de Samuel) o que lhes acontecerá ao serem reinados:

11 Este será o costume do rei que houver de reinar sobre vós; ele tomará os vossos filhos, e os empregará nos seus carros, e como seus cavaleiros, para que corram adiante dos seus carros.
12 E os porá por chefes de mil, e de cinqüenta; e para que lavrem a sua lavoura, e façam a sua sega, e fabriquem as suas armas de guerra e os petrechos de seus carros.
13 E tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras.
14 E tomará o melhor das vossas terras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais, e os dará aos seus servos.
15 E as vossas sementes, e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais, e aos seus servos.
16 Também os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores moços, e os vossos jumentos tomará, e os empregará no seu trabalho.
17 Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe servireis de servos.
18 Então naquele dia clamareis por causa do vosso rei, que vós houverdes escolhido; mas o SENHOR não vos ouvirá naquele dia.

Um reinado, entendido por esse ponto de vista, realmente não parece ser muito agradável. Deus tentou avisar, mas o povo insistiu...

Agora, entrando na figura principal do cristianismo, Jesus, Ele vem anunciar o Reino dos Céus (que está entre nós Lc 17:21) e declara que de Deus é “o Reino, o Poder e a Glória para sempre (Mt 6:13b)”. Um ponto interessante de se pensar, é quando Jesus vai ao deserto e Satanás vem Lhe tentar (Lc 4:1-13). Na segunda tentativa, vemos o seguinte:


5 E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo.
6 E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero.
7 Portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
8 E Jesus, respondendo, disse-lhe: Vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: Adorarás o SENHOR teu Deus, e só a ele servirás.

Aqui é interessante dizer que, “esses Evangelhos foram provavelmente escritos com comunidades cristãs de origem grega, não judeus que eram influenciados pelo ódio [aos romanos]. A referência nestes textos, então, é ao poder político em geral (‘todos os reinos do mundo’) e não somente à monarquia de Herodes” (ELLUL, Jacques, Anarquia e Cristianismo).
Interessante aqui também notarmos duas coisas: (1) o diabo alega que todo o poder e a glória do mundo lhe foi entregue, e em momento algum Jesus contesta isso, pelo contrário, Ele declara que nada quer com tal poder, basta-Lhe adorar e servir a Deus; (2) a origem etimológica da palavra diabo (diabolos) vem de “divisor” (não é uma pessoa), sendo o Estado uma razão primária para a divisão, esse é o ponto de referência para o diabo, não uma alegoria medieval de chifres e cascos.
Vernand Eller, teólogo anarquista também trabalha um pouco nessa linha, ao falar sobre as “políticas do evangelho” e as “políticas mundanas”, e que, infelizmente, muitas igrejas parecem compartilhar desse último tipo de visão, e assim negam o que pregam os Evangelhos. Para ele, escritos que falam sobre as “Boas Novas”, dificilmente poderiam estar falando sobre um sistema excludente, que tenta afirmar a primazia de um grupo sobre o outro (seja qual for o meio), esquecendo-se que todos deveriam trabalhar em comunhão, para conseguir cumprir o mandamento de “amarmos uns aos outros” de forma satisfatória.

Pessoalmente, cerro fileiras com Tolstói e parafraseio-o ao dizer que antes de anarquista, sou cristão. Entretanto, ser cristão automaticamente me faz ser anarquista, pois ao buscar a igualdade a todos na Terra, leva-se a um bom termo o mandamento já acima citado.
Para aqueles que estão agrilhoados por um sistema corrupto e opressor, lembremos sempre das palavras de Jesus: “...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo 8:32)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Jesus e Hitler expiaram nossos pecados?



Hitler e Jesus têm mais em comum do que podemos imaginar. Sim, um é entendido como o Mal Encarnado enquanto o outro é freqüentemente afirmado como Deus Encarnado. Enquanto esse aspecto poderia certamente colocá-los em pólos opostos, eles dividem esse pólo: de serem deuses em nossa mitologia ocidental moderna.

É comum (porém errôneo) assumir que não somos mais uma sociedade construtora de mitos. Au contraire! Não estamos apenas constantemente revisando nossos mitos existentes para adaptá-los à nossa cultura mutante (basta apenas ver a pessoa de Cristo nos filmes para ver as grandes mudanças que ocorrem em apenas uma geração), mas estamos também criando novos mitos para dar sentido às grandes lutas da nossa civilização.

O que você faz com o grande e profundo mal que foi o Holocausto? Reconhecemos que não há particularmente nada de deficiente nos genes alemães que os faça predispostos ao mal. Além disso, embora entendamos que enquanto a cultura germânica certamente teve um papel importante ao dar origem aos males da Segunda Guerra Mundial, sabemos que a história cultural da Alemanha não é substancialmente diferente de seus vizinhos ocidentais que demonstre que eles possam ser intrinsecamente mais capazes de um Genocídio do que outras nações. A não ser, é claro, aquela coisa que é a presença de um semi-deus do mal, como foi Adolf Hitler.

O nome que damos ao Mal que levou ao Holocausto e à Guerra é “Hitler”. E ao nomearmos esse mal, Hitler garante seu lugar no panteão da civilização moderna ocidental. Se seres sobrenaturais existem – se temos deuses – Hitler é um deles. Ele pode fazer o papel de deus mal, mas ele é um deus todavia. Para muitos, ele tomou o lugar de Satanás.

Para ilustrar meu argumento (que Hitler é o deus do mal da nossa cultura, ao ponto de usurpar o posto de Satanás), vamos supor que você está em um debate com um amigo sobre a ética vegetariana. Seu amigo, vamos supor, é um vegetariano. Você, porém, é um onívoro. O debate chega ao ponto de seu amigo gritar: “toda vez que você come bacon, você é como Adolf Hitler!”. Isso deixaria você mais chateado (seja sincero) do que se o seu amigo tivesse dito que você é como o demônio?

Se você for como eu, se sentirá ofendido com o primeiro, e poderá até rir com o segundo.
Então, a primeira semelhança entre Jesus e Hitler é essa, que na nossa mitologia moderna, são ambos deuses.

Outro ponto que Hitler e Jesus dividem é que ambos são bodes expiatórios. O status de Jesus como tal tem sido explorado em numerosos escritos – mais notavelmente no trabalho de René Girard. Geralmente, cristãos acreditam que nossos pecados foram transferidos para Jesus (de uma maneira ou outra), então quando Ele é sacrificado, está sendo sacrificado em nosso lugar. Infelizmente, isso se tornou transacional para muitos, levando-os a abraçar uma graça “barata”.

É interessante para mim que o pensador mais conhecido por expor essa tendência cristã tenha feito isso à sombra do nazismo – Dietrich Bonhoeffer. Quão irônico que possamos facilmente ler Bonhoeffer e concordar que não devemos tratar Jesus como um reles bode expiatório apenas para virar para Adolf Hitler para propiciar nossos pecados! Deixem-me explicar.

Como sugeri anteriormente, é comumente aceito que Adolf Hitler é a razão do nazismo na Alemanha, e aí procederam-se os atos de genocídio. Hitler tornou-se a Causa Solitária do mal – quase um ser sobrenatural sinistro. Entretanto, uma visão diferente do surgimento do nazismo é que Hitler estava focando e manifestando o maior zeitgeist* do povo alemão – ou no mínimo um movimento crescente com o povo alemão.

Quando amaldiçoamos Hitler pelo que aconteceu na Segunda Guerra, falhamos em nomear as causas e tendências maiores que trouxeram Hitler ao poder e que permitiram os feitos horríveis do Holocausto. Deste modo, Hitler tornou-se um bode expiatório para os horrores da guerra.
Porém, ele é muito mais do que simplesmente um bode expiatório para os alemães. Ele serve a um propósito maior na civilização ocidental. Invocar o seu nome é invocar o mal, e assumir que ele é significantemente mais mal do que nós. Comparar alguém a Hitler é um tabu. Quando, no curso de uma conversação na internet, a lei de Godwin** tem efeito, a conversa instantaneamente acaba. Em outras palavras, NINGUÉM é tão mal quanto Hitler, e sugerir tal coisa é um dos maiores tabus que temos na nossa cultura.

Então, quando dizemos que a maneira que os EUA trataram seus índios foi como um “Holocausto”, ou que atualmente Israel está cometendo um genocídio contra o povo palestino, etc., a conversação acaba. Não importa quão maligna seja a história de alguém – ou quão cruel seja o comportamento de uma nação – nada poderá nunca rivalizar o indescritível mal que é HITLER. E, graças a Deus, Hitler é uma anomalia que NUNCA poderá acontecer novamente.

Além disso, Hitler é o Jesus Negro que toma os pecados para nossas próprias atrocidades – nossas injustiças modernas, nossos genocídios passados.

E, para todo o mais, Jesus está lá para tomar nossos pecados restantes. Dificilmente importa as particularidades por trás do surgimento do Messias ou do surgimento do Führer – em ambos os casos, o que temos na moderna sociedade ocidental são dois socialmente-construídos mitos úteis, que existem primariamente para reforçar o status quo.

No fim, achamos que não precisamos seguir o caminho de Jesus, nem temos que nomear suficientemente o mal que reside nos nossos corações, na nossa sociedade, nosso mundo. Por conta do puro sacrifício de Jesus, e da nódoa maligna de Hitler, estamos bem da maneira que estamos. Status quo confirmado!


Mark Van Steenwyk – retirado de www.jesusmanifesto.com em 08/04/2010


* Zeitgeist é um termo alemão cuja tradução significa espírito de época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.

**A Lei de Godwin conhecida também como A Regra das analogias Nazistas de Godwin (ou ainda em inglês Godwin's law ou Godwin's Rule of Nazi analogies, como é mais conhecida no meio virtual), tem por base uma afirmação feita em 1990 por Mike Godwin, um advogado estadunidense conhecido por formular essa "lei", que diz: “À medida que uma discussão na Usenet cresce, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Hitler ou nazistas aproxima-se de 1 (100%).”
Há uma tradição em listas de discussões e fóruns que, se tal comparação é feita, é porque quem mencionou Hitler ou os nazistas ficou sem argumentos.
(notas de rodapé retiradas semvergonhamente da Wikipédia pelo tradutor)